Ministério Oásis 2016

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Faça como o Pr. Jonas, venha para o Oásis de coração desarmado. Se deixe sequestrar.
NÃO SEI SE VOCÊS SABEM, MAS EU ME DEIXEI SER SEQUESTRADO
“Ainda que eu ande no vale da sombra da morte, não temerei mal algum porque tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado me consolam.” (Salmo 23.4)

CORAÇÃO DESARMADO

        Vou pedir licença para ler o sermão de hoje porque não vou conseguir pregar apenas com um esboço ou de memória como faço normalmente. O que farei hoje não é o que faço normalmente. Vou expor meus mais profundos sentimentos, coisa que nunca fiz antes em público e levei quarenta anos para admitir diante de pessoas a quem mais amava e diante de Deus. Você nem imagina o que estou sentindo agora, porque durante todos esses anos vesti um encouraçado para blindar meus sentimentos e emoções.

        Quero que vocês ouçam com atenção. Não quero usar de autopiedade, que é um mecanismo que usava, pois era hipersensível às palavras e atitudes para comigo. Sabe por que me feriam? Porque todas elas tinham um fundo de verdade.

Uso a metáfora do sequestro porque toda vez que você é levado ou se deixa levar para onde não quer é uma forma de sequestro. Eu me deixei seqüestrar e tornei-me um prisioneiro voluntário. Minha vida foi um cativeiro e eu coloquei três pessoas das mais preciosas para mim junto comigo.

1 – O VALE

Como fui parar no vale da sombra da morte e nem me dava conta que para lá andava

 

        Quando nasci, logo fui privado de amor materno porque minha mãe teve distúrbios mentais. Apesar disso, lembro que vivi uma infância como um menino resiliente. Sublimei o sofrimento na forma das mais variadas brincadeiras longe de casa. A rua, os sítios, o campinho de futebol e a escola eram meu refúgio. Era gabaritador de provas. Se existisse a palavra na época, seria um nerd. Só faltavam os óculos.

A pré-adolescência trouxe a primeira seqüestradora: A CARÊNCIA. Ela estava instalada em mim, só que não tinha consciência. No contato com os outros, percebi o quanto precisava de convívio, mas não tinha raízes. Lá pelos meus treze anos, já tinha mudado umas doze vezes. Aí descobri a outra seqüestradora: A VERGONHA. Levei quarenta anos para admitir que eu tinha vergonha de ser quem era, de morar onde morava, de ter a mãe que tinha. O que eu fiz durante todos esses anos? Ignorei minhas reações emocionais, fiz de tudo para negá-las, desenvolvi mecanismos de defesa sempre procurando como poderia rebater qualquer crítica, para não perder a calma e cair em incoerências, joguei a culpa nos outros. O pior de tudo foi que cheguei ao limite de nem mesmo ter sentido emoção em muitas ocasiões, tamanha foi a minha tentativa de jogar bem no fundo tudo o que sentia. 

        Foi nessa condição que me foi apresentado o terceiro seqüestrador: O MEDO de enfrentar a vida. Pensava em muitas fugas. Desde simplesmente juntar meus trapos e sair de casa sem rumo até dar cabo à própria vida. Deus não permitiu nenhuma coisa nem outra. Desenvolvi um jeito de levar a vida: para tentar evitar ao máximo o embaraço (vindo da vergonha), a frustração (vinda do medo) e a tristeza (vindo da carência), me apeguei ao retraimento, a crenças negativas, a uma atitude passivo-agressiva e ao excesso de atividades. Mal sabia eu que tudo isso me entorpecia, era como uma droga. Eu era um drogado emocional. Eram minhas reações ao medo da vida.

        Nessa época conheci Cirlene. Verdadeiramente me apaixonei. Ela foi um oásis na minha vida. Não tivemos orientações. Namoramos direitinho, tudo como manda o figurino. Casamos virgens. Sentimos alegria. Estávamos felizes. Foi só o vento contrário soprar e os meus medos se juntaram aos dela e começamos uma dança: a dança do medo. Eu com o medo primário de ser controlado, ficar no desamparo e fracassar. Ela com medo de não sentir-se amada, aceita, de não ser ouvida, de não ser valorizada e perder o amor que sentia por ela. Ficamos dançando essa valsa a vida inteira. Valsa não, ela é muito suave. Talvez tango. Tango não, é muito sensual e isso perdemos ao longo da vida de casados. Está mais para xaxado. Arrasta o pé para lá e o outro recua, arrasta o pé para cá e o outro vem pra cima de você. Dançam, mas não se tocam. Fazem de conta que estão alegres. Assim foi durante quarenta anos.

        Vieram os filhos, a dança continuava. Só que agora não era só eu que estava indo para o vale da sombra da morte, eu arrastava uma esposa e dois filhos. Agora era dança de quadrilha. No bom sentido, é claro. 

        Para agravar eu me tornei pastor e professor de teologia. Foi aí que fui apresentado a outra de minhas seqüestradoras: A CULPA. Tinha que cumprir minhas funções ministeriais e magisteriais e tentar cuidar da família. Trilhei um campo onde não se pode errar, tem que ser sempre perfeito e tem que zelar do testemunho a qualquer custo. Eu paguei o preço. O fato de ter meus filhos e noras no caminho do Senhor, é um milagre do amor de Deus. Hoje vejo que eu podia errar, que não precisava bancar o perfeito e nem por isso estaria dando mal testemunho. Antes que eu me esqueça, o ORGULHO entrou em cena como um seqüestrador cruel.

        Infelizmente nenhuma estrutura denominacional, principalmente a batista, admite os imperfeitos - como se todos perfeitos fossem. Os que buscam cura, encontram em ministérios independentes e aprendem que o Espírito Santo sopra onde quer. A estrutura em si é neutra, mas é um poder sutil que envolve, seduz, projeta, para depois esmagar com as suas garras. Quantos morreram muito anos antes de serem sepultados? Os caminhos da morte para alguns foi o adultério, para outros foi um ateísmo prático, houve aqueles capitularam numa vida medíocre e muitos outros foram empurrados para estados depressivos. Este último foi o meu caso. Eu não culpo a estrutura pelo meu estado emocional. Eu, voluntariamente, me tornei seu prisioneiro e acorrentei comigo minha esposa e meus filhos. 

        Eu falhei como marido. Não dei amor que Cirlene merecia. Não a apreciei como ela precisava. Não cuidei dela. Ela reagiu a tudo isso. Só lhe vieram sofrimento.

Eu falhei como pai. Se hoje tenho o amor e amizade de meus filhos, foi ato exclusivo da graça de Deus. Mas confesso que minha família ficou doente. Somos uma família doente que precisa da intervenção graciosa de Deus.

2 – A VARA

Como Deus me tangeu para entrar no vale da sombra da morte

Hoje entendo que Deus agiu, apesar da minha ignorância. Eu me deixei sequestrar, mas controlou os seqüestradores. Ele é Senhor de todas as coisas. 

        Lembro de alguns fatos que interpreto como sendo a mão de Deus me tangendo para o vale. Logo no início do ministério, Deus falou-me para não confundir denominação com vontade de Deus. Depois ele me convenceu a nunca me apresentar para qualquer cargo denominacional. Se algo deveria acontecer, seria ele que me conduziria. 

        Chegou a algum momento da minha vida que peguei asco com denominação. Cheguei a pedir a Deus que me livrasse dos batistas para poder ser um bom crente. Certa vez perguntei a Deus se eu não poderia voltar a ser um simples crente. Há nove anos atrás eu parei com minhas atividades magisteriais e me retirei num deserto assustador. Joguei culpa nos outros. Na Cirlene, na denominação, em Deus. 

        Há três anos atrás Deus me tangeu para uma nova comunidade e renovou em mim o desejo de ministrar às pessoas. Não resolvi, porém, as amarras da carência, vergonha, medo e culpa. Aí conheci a minha mais cruel seqüestradora: A FRUSTRAÇÃO. Cheguei ao fundo do poço. Isso aconteceu aqui na CBRio. Mas dou graças a Deus porque aconteceu aqui. A minha vida se afunilou e fiquei numa encruzilhada.               Deus me colocou no vale da sombra da morte. De ambos os lados, só pedreira. Para trás carência, vergonha, medo, culpa e frustração. Para frente uma tremenda interrogação. Eu resolvi dar um basta. Eu e Cirlene estávamos separados corporalmente há pelos menos um ano. Emocionalmente há décadas. Eu estava morando com um dos meus filhos e sobrecarregando seu casamento ainda em fase de adaptação. 

Deus me tangeu porque eu agia como um animal cego e ferido. Eu mesmo não tinha condições de seguir em frente. Ele usou pessoas e a CBRio para me encurralar no canto da decisão. A princípio sentia muita raiva por não poder tomar uma decisão sozinho. Jurei que não voltaria para a Cirlene por medo, covardia ou qualquer outra necessidade. Somente o amor e o respeito me ligariam novamente a ela.

        Foi nesse momento que aceitei ir para uma temporada terapêutica. Fui pensando que era mais uma daqueles encontros melosos de casais que colocam o casal numa redoma, mas não resolve nada. E olha que eu já fizemos encontro de casais. 

3 – O CAJADO

        A maneira como Deus parou de me tanger e virou o cajado para me resgatar

        Chegando ao Ministério Oásis, cheguei sem esperança. Porém, resolvi ser eu mesmo: Jonas. Não levei livros (símbolo de intelectualidade na qual me escondi durante muito tempo), o notebook (símbolo do meu isolamento porque nele me enfiava escrevendo e escrevendo) e nem roupa social (símbolo do meu conservadorismo). Levei bermudas e chinelos (estes até se romperam e tive que comprar outros). Assim me desarmei. Quando a equipe se apresentou, fiquei chocado. Como pode pessoas machucadas e ainda em restauração, em fazimento, ajudarem um professor de teologia, um escritor? Para você ver como funciona o orgulho. Naquele mesmo dia Deus quebrou o meu orgulho ao fazer com que me lembrasse da Escritura que diz: “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas ignóbeis do mundo, e as desprezadas, e as que não são, para reduzir a nada as que são; para que nenhum mortal se glorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1Co 1.26-31).

        Eu baixei as armas da intelectualidade, do orgulho ministerial e me deixei guiar. Abri completamente meu coração, aliviei minha mente de professor e vesti o manto de aluno, aprendiz. Deixei o coração de orgulho de lado e permiti ser quebrantado. Eu e Cirlene caminhamos em direção à cura.

        Foi aí que Deus estourou o cativeiro. Ele usou alguns policiais (a metáfora do sequestro) para fazer isso. O primeiro foi o PERDÃO. Foi muito difícil para mim, mas Deus me deu graça para reconhecer os meus erros cometidos contra a Cirlene. Confessei, pedi perdão. Foi um exercício espiritual dos mais difíceis da minha vida. Descobri que ela não era a causa dos meus problemas. Os erros dela ela teve que reconhecer diante de Deus. Ela também pediu perdão por sua parcela de culpa. 

        Outro policial foi a RECONCILIAÇÃO. Durante nosso processo de separação cheguei a momentos de nunca mais querer tocá-la, muito menos estar perto dela. No meio da temporada terapêutica aconteceu algo extraordinário. Após termos pedido perdão um ao outro, eu ainda dormia em uma cama separada. Numa das noites senti um desejo irresistível de ir até Cirlene, abraçá-la, beijá-la e acariciá-la. Alí senti que minhas mágoas e ressentimentos tinham sido tiradas do meu coração. Ela contou depois que foi naquele mesmo dia que ela orou entregando tudo a Deus. Ela já tinha dado o divórcio como fato consumado. Deus, na verdade, estava preparando uma reconciliação.

Isso se deu exatamento no momento que deixamos nas mãos do Senhor todo sentimento de vingança, ressentimento, perda, desamor. Acho que ele pensou assim: “Vocês levaram anos para fazer isso e eu posso tirá-los em um momento.”

        O outro policial que estourou o cativeiro foi o AMOR. Eu pensava que nunca mais conseguiria amar a Cirlene. Eu estava enganado. O poder de Deus renovou o amor. Eu e Cirlene, para nos amarmos de verdade, fomos alcançados primeira pelo seu amor: “De longe o Senhor me apareceu, dizendo: Pois que com amor eterno te amei, também com benignidade te atraí.” (Jr 31.3). Fomos atraídos pelo Senhor com laços de amor. Que bela maneira de estourar um cativeiro de dor e de sofrimento! 

        Nós estamos agora como os que voltaram do cativeiro (Salmo 126): “Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, éramos como os que estão sonhando. Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cânticos. Então se dizia entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor por eles. Sim, grandes coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres. Faze regressar os nossos cativos, Senhor, como as correntes no sul. Os que semeiam em lágrimas, com cânticos de júbilo segarão. Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus molhos.”

4 – O SENHOR SEMPRE ESTEVE AO NOSSO LADO

A maneira como Deus não se esqueceu de nós

        Hora com a vara, hora com o cajado, Deus sempre agiu. Hoje podemos dizer que Deus nunca nos abandonou. Nós é que complicamos a situação. O vale da morte foi sombrio, amedrontador, mas Deus não nos deixou sucumbir.

Eu e Cirlene temos certeza agora que estamos num processo de RESTAURAÇÃO. Contamos com suas orações. A restauração fica mais fácil quanto há perdão, reconciliação e amor.

        PEDIDO DE PERDÃO

        Pedi perdão a Deus. Pedi perdão à Cirlene. 

        Resta pedir perdão a algumas pessoas.

        Quero pedir perdão aos meus filhos por minhas falhas. Desde que voltamos não tivemos essa oportunidade. Eles sabem o quanto os feri com minhas falhas. O quanto os envolvi e sobrecarreguei com essas crises. Renovo meu amor por sua mãe e espero aliviar a tensão de vocês dois.

        Quero pedir perdão às minhas noras por ter influenciado na insegurança dos seus casamentos nesses primeiros anos. Tenho vocês duas como minhas filhas a quem amo muito. 

        Quero pedir perdão à minha igreja. Cometi um pecado comunitário. Não cometi adultério contra a Cirlene, fiquem tranquilos. Quando a gente se nega a viver plenamente o perdão de Deus e a perdoar os outros, pecamos contra a comunidade de fé. Quando deixamos de viver o padrão de vida cristã, contaminamos os outros com nossas mágoas e ressentimentos. Perdão, meus irmãos. 

Eu, como pastor, sobrecarreguei meus colegas pastores. Perdão, meu colegas.