Ministério Oásis 2016

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Um Perfil Psicológico Saudável (Adequado) do Missionário Transcultural

Dr. William Bacheller – Diretor do Ministério Oásis

 

    Nos últimos 8 anos fui convidado pelas agências JUVEP, AME, AMEM, AMIDE, ASAS de SOCORRO, NOVOS TRIBOS e outras para traçar o perfil psicológico de novos candidatos. Eu entendo que a palavra psicologia trata-se do estudo da alma (psyché). Sendo assim, inclui instrumentos como PF-16, o instrumento de Thomas Hillmann que identifica os estilos de resolver conflito, um inventário de dons espirituais, um questionário estabelecendo os alicerces psicológicos do novo candidato, um questionário identificando traumas emocionais não tratados, uma auto-avaliação do casamento, etc., etc. A verdade é que não existe somente um perfil perfeito para todas as agências, nem para todos os campos missionários.  Entretanto, acredito que existem no mínimo seis elementos (pode ser mais ou menos, dependendo do terapeuta) que devem compor o perfil psicologico adequado do nosso missionário. Se existir menos que os seis elementos, o risco é maior que o candidato não fique no campo missionário por um periodo estendido, e/ou o missionário gera conflito e trauma para si mesmo e os outros ao seu redor, criando cáos emocional e espiritual constante.  Na medida em que o número de elementos que estão ausentes aumenta, maior é o risco em enviar o candidato para o campo transcultural.

As Definições de Termos Chaves Perfil

   Um perfil qualquer se propõe a dar competências chaves, e não um quadro completo.  Um perfil é um tipo de esqueleto que dá forma ao corpo do conhecimento. Consequentemente, não trato aqui, nenhum assunto com profundidade, mas o suficiente para dar elementos essenciais.

 

Saudável/Adequado

   Saúde e saudável são termos do movimento de saúde mental cuja origem é da Europa. A Bíblia não usa estes termos, mas talvez o termo paz ({Olf$ ), ou “saúde, bem-estar, inteireza total”(Dicionário Hebraico-Português, Sinodal/Vozes, p.252) seja um sinónimo para descrever o estado da alma. O problema é: quem é que define o que é saudável e baseado em quais valores éticos? Um exemplo: A Associação Psiquiátrica Americana decidiu em 1976 por votação tirar o homossexualimso de seu manual – (o DMS III ) de distúrbios mentais,  concluindo que ele só é um distúrbio quando perturba subjetivamente, um determinado indivíduo.

 

Psicológico

   A palavra vem de um termo grego  o estudo da alma.  O termo foi arrancado das mãos dos evangélicos europeos na virada do século vinte, quando os líderes da igreja não acreditavam mais que Jesus era o maior psicólogo que existia, e consequentemente entregou o cuidado da alma para os profissionais seculares.  Os conselheiros cristãos devem resgatar o termo e a prática.

 

Seis elementos chaves de um perfil psicológico mais saudável que menos saudável.

 

1. O CICLO DE AMOR

   O primeiro elemento chave é a prática do ciclo de amor: Receber amor que gera amor-próprio que resulta em amor para com o outro.

 

A. O processo de receber o amor

   Um pastor me disse: “Nunca ouvi, nenhuma vez, saindo da boca do meu pai, ou da minha mãe: ‘Eu te amo’. Nunca me lembro de sentar no colo do meu pai. Não me lembro de receber carinho deles. Agora, dificilmente dou isso a minha esposa”.

Há tanta pesquisa sobre o resultado do nenê receber amor enquanto está no útero, ou ao contrário, quando a mãe dá o nenê para adoção, resultando muitas vezes, no que a psicóloga Nancy Verreir chamou “A Síndrome de Abandono”, no seu livro A Ferida Primal. Dificilmente o filho adotivo acredita que pode merecer ser amado, e rejeita o amor dado a ele, e consequentemente não se ama a si mesmo, nem a outras pessoas.

 

B. O conceito de amor próprio

   “O amor próprio em sua essência é um amor em relação à própria pessoa- material e imaterial, alma, espírito e corpo; uma apreciação do valor de se mesmo como pessoa feita à imagem de Deus. Alguns cristãos têm dificuldade de aceitar essa conclusão porque acham que o amor próprio é uma atitude de superioridade, um desjeo obstinado de satisfazer a própria vontade ou um orgulho egocêntrico. O amor próprio não é uma adoração erótica ou extática. Amor próprio significa ver a nós mesmos como  pessoas criadas, valorizadas e amadas por Deus, e portadores de imagem de Deus. Nós nos amamos por que Deus nos amou primeiro.  Todas essas características são compartilhadas com qualquer ser humano, remido ou não.  Como diz  Gary Collins, “Essa visão bíblica do amor próprio tem que ser a base de auto-estima” (Collins, p.375).

 

   A Bíblia supõe que nós nos amamos.  Em Mateus 22:39 - “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O mandamento de amar o outro é baseado na capacidade, na experiência de amar a si mesmo. Amor próprio precede o ato de amar os outros. Em 1 Samuel 18:1 lemos que “Jônatas amou Davi como á sua própria alma”.  O amor do Jônatas por Davi foi medido pelo amor dele por si mesmo. Porque ele amou o seu próprio ser e estava pessoalmente seguro, ele podia, com graça, amar Davi.  Em Efésios 5: 28-33, o amor próprio é mencionado três vezes. No verso 28 Paulo diz, ame a sua mulher como ama a sim mesmo; e no verso 33: “Portanto, cada um de vocês ame a sua mulher como a si mesmo”. A implicação é muito clara: é necessário amar a si mesmo para poder amar a esposa. O amor próprio é fundamental para o bem-estar humano. A causa principal em não amar a si mesmo (Loss, 40) é a falta de receber ou dos pais, ou figuras substitutas, ou de Deus, (e nisto, soberanamente, misticamente, graciosamente), amor incondicional desde nenê até adulto. A falta de receber e aceitar amor resultará numa ausência berrante de amor-próprio.

 

   Como alguém pode superar a falta de amor-próprio? Henri Nouwen, no seu livro, Orientação Espiritual, p.28 e seguinte, cita Lucas 3:22: “e o Espírito Santo desceu sobre ele e disse, ‘Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo’”:

 

  “A tentação espiritual mais séria é duvidar dessa verdade fundamental a cerca de nós e confiar em identidades alternativas. Às vezes, somos interrogados: “Quem sou eu?”, com a resposta, “Sou o que faço”, ou “Sou o que outros dizem que sou” ou “Sou o que tenho”. A maior armadilha na vida não é sucesso, popularidade, ou poder, mas auto-rejeição, duvidando quem nós verdamente somos... Auto rejeição se manifesta em arrogância ou baixa-auto-estima. Desde o momento em que acreditamos na verdade de ser amado por Deus, enfrentamos o chamado de nos tornarmos quem nós somos..”

 

   Para que possamos nos tornar quem nós somos, precisamos internalizar os princípios bíblicos relevantes pela memorização das Escrituras, falando em voz alta para sentir o amor do Pai.  Devemos orar para que Deus dê este pensamento e sentimento a nós mesmos de uma maneira sobrenatural, até mística.  Devemos pertencer a um grupo pequeno que tem pessoas que podem ser pais substitutos.

 

 C. A incapacidade de amar os outros  

  A ausência de amor-próprio produz uma insegurança que pode ser manifestada em egocentrismo aberto ou egocentrismo oculto. Egocentrismo aberto, sem vergonha, chama-se orgulho; egocentrismo oculto, desfarçado, chama-se humildade falsa. “O orgulho, diz o cristão, é visto na pessoa que se colocou no centro do seu própio universo e fez de si mesma o objeto de todos os seus interesses e devoção”... (Ashford, p.19). Uma pessoa que não ama a si mesma para se sentir melhor, age de modo a convencer os outros e a si mesma da sua importância e superioridade.

 

   Por outro lado, muitas pessoas gastam energia servindo a outras apenas para aparência. Entretanto, isto não é prova de segurança interior, porque é possivel que o motivo de servir seja ganhar a aprovação dos outros e, através disso, ganhar auto-aceitação. Como Myron Loss fala no seu livro Choque Cultural, página 43, “A pessoa centrada em si mesma é a recipiente primária do fruto do seu labor. Ela trabalha para a aprovação social, para o conforto pessoal, ou para alguma forma de notoriedade. Ela pode tentar isto através da falsa humildade nas culturas onde a humildade é vista como uma virtude”.

 

   Para a maioria das pessoas a maior quantidade de energia é gasta na autodefesa, não na compaixão genuina em alcançar os outros. Nesta maneira, Paul Tournier diz que há pouca diferença entre os não-cristãos e cristãos: “Todos estão constantemente motivados pelo objetivo único de fazer com que eles mesmos apareçam da melhor forma possível. Todos eles estão sempre em alerta e ansiosos para que suas fraquezas, sua faltas, sua ignorância, seus costumes, e seus fracassos não sejam decobertos.” (Tournier, Leadership, p. 36).

 

Conclusão:

   Nas melhores das hipóteses podemos dizer o seguinte: A pessoa recebe amor dos pais começando no útero (antes, segundo Salmo 139) possibilitando-a a ter segurança para que possa se amar e consequentemente amar o outro. O ciclo de amor é receber amor, desenvolver amor- próprio, e dar amor. Descrentes que experimentam o amor dos pais desde a madre até a morte dos pais têm desenvolvido a capacidade de praticar o ciclo de amor. É o mesmo princípio que Deus tem colocado nas vidas dos seus filhos. Ele nos amou antes da fundação do mundo, nos amou primeiro, e deu o seu filho por nós. Como resultado, temos a capacidade de amá-LO e amar o outro (Romanos 12, 1 João). O ciclo é o mesmo para os descrentes e para os crentes: ser amado para que possamos desenvolver o amor-próprio, para que possamos amar os outros.

 

2. ESTABELECER E MANTER LIMITES:

  O segundo elemento chave é a prática de estabelecer e manter limites (físicos, emocionais, espirituais, e ministeriais).

 

A. O que são limites

   No mundo lá fora, é facil enxergar os limites. Muros, grades e cercas elétricas são limites físicos. Todos dizem: AQUI É MEU TERRITÓRIO. O dono do terreno fica responsável para cuidar e proteger o terreno. Os não-donos não são responsáveis por ele. Os limites físicos marcam a linha visível de uma propriedade que pertence a alguem!

 

   Não é muito diferente no mundo psicológico.  Cloud e Townsend, no livro deles, Limites, páginas 29 a 30 argumentam:

 

   “Os limites nos definem. Definem o que sou eu e o que são os outros. Um limite pode mostrar onde termino e onde alguém começa, dando-me uma idéia de posse. Geralmente os limites ajudam a guardar o que é bom e excluir o que é ruim. Entretanto, quando as pessoas sofrem agressões durante a fase de crescimento, invertem a função dos limites e mantêm o mal dentro e o bom de fora. Eu, o dono segundário (Deus é o primário) da minha alma fico responsável para cuidar e proteger o terreno. Os não-donos não são responsáveis por ela”.

 

   Os limites não são muros, grades e cercas elétricas literais, mas são a pele, a palavra “não”, a verdade, distância geográfica, tempo, distância emocional, outras pessoas e as conseqüências de não obedecer os limites estabelecidas.

 

B. A construção de limites:
 
1.  A primeira etapa em construir limites é

 

    “constância objetiva emocional” ou seja, em termos não técnicos, amor incondicional repetidamente recebido pelo nenê nos primeiros 5 meses de vida.

   John Bowlby, um psicólogo Inglês, desenvolveu a teoria da ligação afetiva observando os comportamentos de crianças com suas mães ou com aquelas pessoas que lhes dispensavam o maior cuidado. Ele argumentou que a mãe é “a arquiteta de todos os relacionamentos humanos”.  Ele postulou que os seres humanos são sociáveis desde o nascimento e que a busca por uma ligação afetiva segura constitui parte fundamental de nossa natureza.  Bowlby defendeu que “o comportamento de ligação afetiva é mantido para caracterizar os seres humanos do berço até a cova” (Bowlby 1977, 203).

 

  Em seu estudo divisor de águas, Mary Ainsworth descreveu três comportamentos básicos de crianças para com as suas mães (Ainsworth et al. 1978). Quando angustiadas pela separação de suas mães, as crianças seguras, no momento do reencontro, se aproximavam de suas mães em busca de conforto e apoio. “As crianças ansiosas/ambivalentes se aproximavam de suas mães em busca de apoio, mas também demonstravam raiva e resistência ao conforto dado. As crianças evitantes não buscavam o conforto de suas mães após a separação” (Scott e Cordova 2002, 200). Atualmente, os teóricos da ligação acreditam que todos os três estilos estejam baseados na visão do ‘eu’. “Ao cruzarmos as informações, os resultados sugerem que as pessoas que apresentam estilos de ligação afetiva distintos diferem de maneiras teoricamente previsíveis em suas visões do ‘eu’” (Pietromonaco e Barrett 2000b, 4).

 

   Ela explica em um estudo posterior qual é a relação entre a ligação e a afeição. Uma “ligação” é um vínculo emocional e, conseqüentemente, uma figura de ligação nunca é inteiramente intercambiável com ou substituível por outra, embora possam existir outras pessoas a quem o indivíduo também esteja ligado. “Nas ligações, assim como em outros vínculos emocionais, existe uma necessidade de se manter a proximidade, de se angustiar devido à separação inexplicável, de se sentir prazer ou alegria no reencontro e dor mediante a perda” (Ainsworth 1989, 4). Uma relação segura entre pais e filhos é aquela em que a mãe respeita o(a) filho(a), é confiante, acolhedora, responsável, não intrusa e não exigente, confiável, compreensiva e carinhosa , e o pai, entre muitas outras coisas, é generoso, amoroso, bem-humorado e afetuoso (Hazan e Shaver 1987, 9).

 

2. A segunda etapa em construir limites é Separação-Individuação:

 

   Em termos mais simples, é o processo de ganhar uma identidade separada da mãe. Essa etapa inclui Descobrimento-(5-10 meses), Experimentação (10-18 meses),e Re-equilibrio (18 meses-3 anos). No fim dos 3 anos, a criança deve ser capaz de: 1. Ligar-se emocionalmente aos outros, sem perder a noção de si mesma e sem deixar sua autonomia de lado; 2. Dizer “não” aos outros quando for o caso, sem ter medo de perder o amor das pessoas (os pais em particular); e 3. Aceitar o “não” dos outros, sem se retrair emocionalmente (Cloud, Townsend, Limites, p.78).

 

   Outras duas fases da vida tratam dos limites. A primeira é a adolescência. Esse período é uma reordenção dos primeiros anos da vida. Compreender questões mais maduras como sexualidade, competição, identidade sexual e identidade adulta é o alvo. A segunda fase é o princípio da vida adulta, a época em que os filhos saem de casa ou terminam a faculdade e iniciam a vida profissional ou se casam. “Uma infância problemática pode ser bastante melhorada com muita dedicação por parte da família durante a adolescência. Mas problemas sérios com limites durantes essas duas fases podem ser devastadores na idade adulta” (Cloud, Townsend, Limites,p.78).

 

  Os problemas sérios com limites se mostram de quatro tipos.  Os Aquiescentes que dizem “sim” para o que não presta; Os Esquivos que dizem “não” para o que é bom; Os Controladores que não respeitam os limites dos outros. Há dois tipos de controladores: Os controladores agressivos que agem como se não existisse limite nenhum, e os controladores manipuladores que tentam a persuadir ou manipular as circunstâncias para impor a própria vontade. Eles usam mensagens de culpa falsa para persuadir os outros a carregarem os seus fardos. E finalmente os Insensíveis que não dão ouvidos às necessidades alheias.

 

3. UMA IDENTIDADE SEXUAL SAUDÁVEL (Cristã)
 

   O terceiro elemento chave é a prática essencial de  uma identidade sexual saudável (cristã).

 
 
A. Uma Orientação Heterosexual
 

   Nos últimos vinte anos, como professor residente num seminário evangélico, eu tratei um caso de homossexualidade praticante, ou ex-praticante com grandes dificuldades na média de 1 a cada dois anos. No Ministério Oásis, nos últimos 4 anos, tratei casos de abuso sexual dos dois sexos na média de 1 em cada 10 missionários. Desafios na área orientação sexuais vêm 1 em cada 15 missionários.

   Parece que a pessoa de Deus inclui características tradicionalmente dadas a ambos os sexos do ser humano. A idéia que percorre é que Deus dividiu essas características entre homem e mulher, e juntos eles refletem mais completamente a pessoa de Deus. Isso incluiu a extensão do ser humano na face da terra e a reprodução da espécie (Gn.1 ). O livro de Cantares “canta” sobre os prazeres de uma vida conjugal heterossexual, re-enfatizados em Efésios 5.

   A Bíblia menciona o assunto de homossexualismo em 7 passagens bíblicas (Gn 19:1-11; Lv.18:22; 20:13; Jz 19:22-25; Rm 1:25-27; 1 Co 6: 9; 1 Tm 1:9-10).  Obviamente o homossexualismo nunca é aprovado, mas também não é destacado como um pecado pior que os outros. Psicologicamente falando, o terapeuta cristão entende que a orientação homossexual é um transtorno e precisa ser tratado.

 

B. Um Livramento de Culpa e Vergonha de Abuso Sexual.
 

   Os sobreviventes ao incesto correm um risco significativamente maior que a população geral de apresentarem problemas psicológicos, tais como: depressão, ansiedade, baixa auto-estima, dificuldades conjugais, concepção do suicídio, auto-culpa e culpa, doenças alimentares, uso de drogas e relacionamentos interpessoais cheios de conflitos. (Freedman e Enright 1996, 2)

   O estudo incluiu doze mulheres que haviam sido sexualmente abusadas por um parente do sexo masculino quando ainda crianças. Cada uma dessas mulheres fez sessões de terapia com duração de sessenta minutos durante aproximadamente 14.3 meses. As sessões lidaram com as vinte unidades do modelo de processo do perdão. Cinco testes foram aplicados antes e depois do tratamento. O presente estudo prova a efetividade da intervenção do perdão para as sobreviventes ao incesto. Até onde sabemos, este é o primeiro estudo que examina empiricamente o papel do perdão como tratamento para os sobreviventes ao incesto, além de ser o primeiro a empiricamente identificar uma relação entre o perdão e a saúde psicológica melhorada. (Freedman e Enright 1996, 9).

 

C. Um Livramento de Culpa, Vergonha e Lacunas Psicológicas de Sexo-Pre-Conjugal.
 

   Sexo pré-conjugal sempre leva alguns danos espirituais e psicológicos nas vidas dos participantes. Culpa e vergonha são os danos mais comuns. Outros são ciúmes, falta de confiança no cônjuge, raiva não tratada, baixa-estima e outros. Quando uma pessoa entra numa segunda cultura, e em choque cultural, ela é mais vulnerável em todas as áreas sentimentais, incluindo amor conjugal.

 

4. UMA AUTO-ESTIMA HONESTA - O Quarto Elemento Essencial é a Prática de Uma Auto-Estima Honesta.

 

    Um exemplo da luta com uma auto-estima inadequada, de um aconselhando meu: A minha pergunta para ele foi: “Você está fazendo as pazes com o seu passado”?  Resposta: “Fiquei preso a uma baixa auto-imagem. O sentimento de impotência, uma sensação que não tenho vitoria, me sinto arrasado, tão preso! Outro exemplo: Uma missionária: “A minha auto-estima está lá embaixo. Antes de me converter fui abusada, transei com rapazes, engravidei sem ser casada e agora é difícil para mim ter confiança no meu marido. Acho que não mereço o melhor homem do mundo, como meu marido”.  Ambos estavam em dúvidas sérias sobre retornar OU não para o campo missionário. A minha experiência como terapeuta cristão concorda com os resultados de uma pesquisa feita nos EUA. A pesquisa incluiu 227 participantes, de 22 agências missionárias em 42 países que responderam a um questionário de 19 perguntas, com o alvo de determinar as causas das dificuldades de adaptação no campo.  A pergunta foi: “Você experimentou alguma dificuldade com sua auto-estima (sentimento de valor próprio, auto-aceitação) durante seu primeiro período? Setenta e três por cento dos que tinham menos que 10 anos de experiência responderam “sim”. “Esta amostragem indica que, a grosso modo, três em  cada quatro novos missionários lutam, em um grau ou oturo, para manter sua auto-estima” (Loss, p.15).

 

   A palavra “auto-estima” aparece frequentemente na lituraura sobre aconselhamento, junto com termos relacionados, como auto-imagem e “auto-conceito”. A auto-imagem e o auto-conceito se referem à idéia que fazemos de nós mesmos. Pergunte a si mesmo, “Se você fosse um romancista descrevendo a si mesmo como o personagem principal de um livro, quais palavras usaria?” Provavelmente, a descrição incluirá uma lista de traços de personalidade, pontos fortes e fracos, e características físicas. A auto-imagem e o auto-conceito incluem esses pensamentos, atitudes e sentimentos que temos a respeito de nós mesmos. Já auto-estima significa algo ligeriamente diferente. Este termo se refere à estimativa que uma pessoa faz acerca de seu próprio valor, sua competência e importância. Enquanto a auto-imagem e o auto-conceito envolvem uma descrição, a auto-estima envolve uma avaliação (Collins, Aconselhamento Cristão, p.372).

 

   Como conselheiro David Carlson diz, “O amor próprio, conforme o entendo bíblica e psicologicamente, inclui o seguinte: (1) aceitar a mim mesmo como um filho de Deus valioso, capaz e digno de ser amado; (2) estar disposto a desistir de me cosiderar o centro do mundo; (3) reconhecer que preciso do perdão de Deus. A auto-estima cristã é o resultado de se trocar a afirmação “eu sou o maior, o mais esperto, o mais forte, o melhor” por “eu sou o que sou, uma pessoa criada à imagem de Deus, um pecador remido pela graça de Deus e uma parte importante do corpo de Cristo” (Carlson, Aconselhamento e Auto-Estima,p. 12).

 

5. A TRÍADE DE PERDÃO
 

   O Quinto Elemento chave é a Prática da Tríade de Perdão: pedir e receber perdão de Deus; pedir de, e liberar a outrem e; perdoar a si mesmo.  

 

   Enright criou um modelo de processo que inclue três dimensões do perdão: receber o perdão e perdoar a si mesmo. Ele cunha a capacidade de dar perdão, receber perdão e perdoar a si mesmo de “tríade do perdão”. O estudioso afirma que os conselheiros devem enfatizar a tríade do perdão quando trabalharem com seus pacientes.

 

  • Um exemplo de não perdão de pastores divorciados e ex-esposas da denominação ICEB (Igreja Cristã Evangélica do Brasil).

 

 

   Nenhum dos vinte cônjuges entrevistados afirmou, “Sei que meu cônjuge me perdoou”.  Nenhum deles expressou esta convicção verbalmente. Um total de cinco cônjuges (nenhum casal) estava no caminho de aceitação do perdão. Estes cinco vêem a si mesmos como os ofensores.

 

   Apenas dois ex-maridos dentre estes casais eclesiásticos pediram perdão para suas esposas. Estes dois homens, um na fase de decisão e outro na fase de trabalho do perdão, estão absorvendo a dor e esperando uma resposta de suas ex-esposas. A única mulher também está na fase de decisão e reconheceu a necessidade de pedir perdão. O primeiro marido que pediu o perdão de sua ex-mulher relata: (…) ainda está muito difícil as nossas conversas porque ela começa chorar (…) ou agredir ou coisa assim (...) ainda há muita fricção (...) Eu errei (…) eu confessei pra eles (meus meninos adultos), mas eles agora assumiram o papel de pai, querem ser meu pai, todos. ‘Você não devia ter feito isso (…)’. (10: 25).  Entretanto, sua ex-mulher afirma o seguinte: (…) na verdade, raiva, ódio, mágoa - eu não tenho. Eu tenho saudades, sinto dores porque eu estou sozinha, mas eu não tenho nenhuma lembrança ruim da vida do nosso relacionamento. Foi uma pessoa maravilhosa pra mim. Para os meus filhos (…). (8: 15)

 

Neste caso, a esposa já concedeu o perdão; no entanto, ao mesmo tempo, o marido não tem certeza alguma de que foi perdoado.

 

Definição de perdão:

   

   A maior parte da literatura moderna já publicada sobre o perdão enfoca uma pessoa perdoando outra por uma ofensa injusta. Enright, define o perdão como uma “disposição do ofendido em abandonar o direito ao ressentimento, à condenação e à vingança sutil para com o ofensor que age injustamente e, ao mesmo tempo, promover as qualidades imerecidas de compaixão, generosidade e até amor para com ele(a)” (Enright e Reed Junho de 2000, 2).

 

  Várias suposições precisam ser salientadas. Em primeiro lugar, a pessoa ofendida foi ferida injusta e, talvez, profundamente por outro(s) indivíduo(s). Segundo, a pessoa ofendida escolhe perdoar de boa vontade; não obrigatoriamente. Em terceiro lugar, a nova postura do indivíduo ofendido inclui o afeto (superação do ressentimento e sua substituição por compaixão), cognição (superação de pensamentos de condenação por pensamentos de respeito) e comportamento (superação de uma tendência a atos de vingança por atos de boa vontade). Finalmente, o perdão é essencialmente a resposta de uma pessoa a outra. Destarte, um perdoador pode oferecer este presente incondicionalmente não obstante a atitude ou o comportamento atual do outro (Enright e Reed 2001, 1).

 

A resposta de liberar perdão aumenta a tendência a transformar uma situação conflituosa.

 

   Um foco voltado para a tríade sugere que a resposta de perdão de uma pessoa em um relacionamento conflituoso pode ajudar a transformar a(s) outra(s) pessoa(s). O ato de ofertar o perdão, até este ponto das investigações científicas, tem enfatizado os resultados ou conseqüências apenas para o perdoador. Todavia, se examinarmos os[três elementos de perdão] todos juntos, veremos que o perdão completo pode funcionar como estímulo para que o ofensor busque ou receba este perdão. Receber o perdão pode despertar o ato de perdoar a si mesmo. O perdão de si mesmo, quando entendido e praticado, poderá encorajar o futuro perdão a outrem. As três partes da tríade se complementam umas as outras e podem formar nos participantes o que chamamos de “visão de mundo do perdão”. (Enright 1996, 10)

6. Lidar Bem com As Emoções

O Sexto Elemento Chave é a Prática de Lidar Bem com as Emoções.

 

ILUS: Um missionário: “Eu guardava muitas emoções durante o dia. Na cama, chorava a noite. O meu tio e a minha tia não me deu carinho. Sei que eles procuravam me criar até nos padrões nordestinhos, mas ela não tinha condições no lado emocional”.

 

Uma definição e descrição de emoção

a. A palavra emoção provém do Latim emotionem, "movimento, comoção, ato de mover". É derivado tardio duma forma composta de duas palavras latinas: ex, "fora, para fora", e motio, "movimento, ação", "comoção" e "gesto" Posteriormente, é documentada no sentido de "agitação da mente ou do espírito".  Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional diz que emoção é um impulso neural que move um organismo para a ação. A emoção se diferencia do sentimento, porque, conforme observado, é um estado neuropsicofisiológico.     Os elementos da definição de emoção: neuro - começa no cérebro; psico - afeta a alma (psyche); fisiológico - afeta o corpo. Todas as emoções vêm acompanhadas por reações fisiológicas. Quando sentimos medo ou raiva, a carga de adrenalina aumenta e faz com que nosso coração dispare e o corpo entre em estado de alerta. Quando estamos felizes, nosso corpo produz mais endorfinas, que resultam em sensação de bem-estar.

 

A Bíblia e as Emoções

A Bíblia diz que devemos “dominar” as emoções e ter consciência delas. Muitas vezes elas podem motivar-nos a fazer coisas boas. A compaixão do bom samaritano levou-o até o Judeu ferido (Lc. 10:33). O pai encheu-se de compaixão pelo filho perdido abraçou-o (Lc. 15:20). Muitas vezes Jesus “teve compaixão” das pessoas a quem ministrava (Mt. 9:36; 15:32).

 

Lidando bem com as emoções

As emoções revelam em que condição se encontra seus relacionamentos. Elas dizem se as coisas estão indo bem ou se existe um problema. Se você se sente amado (reação neuropsicofísiologica), as coisas provavelmente vão bem. Se você se sente irado, provavelmente há um problema que precisa ser resolvido.  É importante lembrar que as suas emoções são sua responsibilidade e você deve assumi-los e entendê-las como problemas seus, para que possa começar a buscar uma resposta para o que elas estão dizendo. Desde que o impulso neurônico causa uma estimulação física para nos “mover para fora,” o mais saudável comportamento é reconhecer e obedecer, dentro dos limites culturamente e biblicamente aceitáveis. 

 

Algumas implicações:

Um dos alvos durante o processo de candidatura deve ser a identificação e recuperação das lacunas no perfil psicológico do candidato. Para que a liderança identifique as necessidades, ela precisa gastar tempo estendido em contextos variados com os alunos para observar o comportamento, atitudes, sentimentos, e palavras, e ter a capacidade de ligar tais com as deficiências psicológicas.  O processo de recuperação começa com uma avaliação formal pela liderança. O candidato deve ser avaliado duas vezes durante a candidatura - a primeira vez durante a primeira metade do período, e uma segunda vez no fim. A avaliação deve aproveitar um formulário que inclue uma seção sobre o perfil psicológico incluindo os seis (ou mais) elementos citados nesta palestra, compartilhados pela liderança com o candidato. A recuperação continua durante o convívio com os candidatos.  Vamos supor que foi detectado que o candidato não mostra a capacidade de amar si mesmo, nem dar amor aos outros.  Na convivência, oportunidades de dar amor ao candidato pelas figuras principais da missão para que ele receba amor são imprecindíveis.  O que é necessário é tratar com honestidade os pontos fracos da pessoa, mostrando amor incondicional em pleno conhecimento das falhas. Garanto que o candidato começará a experimentar amor próprio, e com isso, começará amar os outros.

 

 

Referências:

Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E. and Wall, S.1978. Patterns of attachment: a psychological study of the strange situation. Hillsdale, N. J.: Eribaum.

 

Ainsworth, Mary D. 1989. Attachments beyond infancy. American Psychologist 44, no. 4: 709-16.

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Cloud, Henry e John Townsend.  Limites. São Paulo: Editora Vida. 1999.

 

Collins, Gary R.  Aconselhamento Cristão.  São Paulo: Vida Nova. 1984.

Crabb, Larry. Como Compreender as Pessoas. São Paulo: Editora Vida. 1998.

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